Por que amar?
Quando o humano chega ao mundo, ele o faz como um ser em devir. O bebê humano encontra-se em uma condição de extrema fragilidade, uma vez que depende radicalmente de outro ser para garantir sua sobrevivência. É a partir desse outro que o bebê será acolhido, cuidado e introduzido no mundo.
Aquele que exerce a função de cuidado convoca a criança a pertencer a determinado grupo e, por meio do campo da linguagem, apresenta-lhe o mundo, seus significados e suas formas de relação. É também nesse encontro que a criança entra em contato com o amor, experiência fundamental para a constituição dos primeiros laços e para a organização de sua vida psíquica e relacional futura.
Entretanto, aquilo que inicialmente contribui para a sobrevivência e constituição da criança — como o investimento narcísico dos pais — pode, quando ultrapassa determinados limites, produzir um efeito contrário. O investimento que deveria favorecer a constituição do Eu pode passar a se direcionar predominantemente para aquilo que se espera da criança, para o lugar que ela deve ocupar ou para a satisfação das expectativas daqueles que dela cuidam.
Nesse sentido, é possível pensar que crianças que crescem em ambientes familiares disfuncionais possam, ao longo de seu desenvolvimento, reconhecer determinadas formas de violência, desvalorização ou ausência de cuidado como parte natural das relações. Aquilo que deveria ser percebido como falta de amor pode tornar-se, justamente por sua familiaridade, uma experiência difícil de ser reconhecida enquanto tal.
Em lares nos quais predominam jogos de dissimulação, competição, conflitos, ofensas e desvalorização do feminino, pode por exemplo, fazer com que algumas mulheres encontrem dificuldades para reconhecer e escolher relações nas quais sejam efetivamente valorizadas. O que lhes foi apresentado como familiar pode ser confundido com aquilo que se espera de uma relação amorosa. Dessa forma, relações marcadas pelo sofrimento podem adquirir uma aparência de normalidade, não necessariamente porque sejam desejadas, mas porque são conhecidas.
Em outros casos, a experiência de sofrimento pode produzir um movimento inverso: diante do temor de reviver a dor, o sujeito passa a evitar o envolvimento afetivo. Se, em uma situação, existe a busca incessante por alguém que finalmente ofereça aquilo que faltou, em outra, pode haver uma recusa antecipada do encontro, como forma de proteção contra uma possível decepção.
Embora as consequências possam assumir formas distintas, em ambas as situações a frustração pode se fazer presente. No primeiro caso, o envolvimento com alguém que não proporciona uma relação de cuidado e valorização pode reatualizar sentimentos de incapacidade já experimentados em outros momentos da vida: “não fui boa o bastante para fazer durar”, “sempre fico com pessoas que não me valorizam” ou “estou sempre em busca de alguém, mas nunca encontro”.
No segundo caso, a possibilidade de um encontro amoroso pode ser constantemente interrompida pela expectativa da decepção. O sujeito não necessariamente se permite chegar à experiência de uma relação potencialmente feliz, pois permanece em estado de alerta, aguardando o momento em que o outro irá decepcioná-lo. Assim, a defesa contra a dor pode também impedir a experiência do amor.
Estabelece-se, desse modo, uma oscilação entre a decepção constante e a expectativa de uma nova decepção. Em ambos os movimentos, o desencontro com o outro parece ocupar um espaço maior do que a possibilidade de encontro.
É justamente nesse ponto que o amor pode ser pensado para além de uma experiência idealizada ou exclusivamente romântica. Amar, em suas diferentes possibilidades, diz respeito a um envolvimento afetivo que nos convoca à entrega e à abertura para o outro. Trata-se de uma aposta: escolher amar e investir nas possibilidades de que o encontro aconteça, mesmo diante da impossibilidade de garantir previamente seus resultados.
Em O Banquete, Platão apresenta o amor como um daimon, uma figura intermediária, cuja função é estabelecer ligação e produzir o encontro entre aquilo que está separado. Essa compreensão torna-se especialmente relevante quando pensamos o amor como aquilo que atravessa diferentes dimensões da existência humana, produzindo vínculos, aproximações e sentidos.
Pensar o amor dessa maneira permite questionar o que acontece quando a experiência do encontro é constantemente substituída pelo medo, pela defesa e pela expectativa da perda. A ausência do amor não significa apenas a ausência de uma relação amorosa, mas pode representar o enfraquecimento da capacidade de estabelecer vínculos nos quais o sujeito possa reconhecer a si mesmo e ao outro como seres de potência.
Assim, talvez amar também implique a possibilidade de romper com aquilo que foi anteriormente aprendido como única forma possível de relação. Permitir-se amar pode significar construir uma experiência diferente daquela que um dia foi tomada como familiar, abrindo espaço para que o encontro com o outro não seja determinado exclusivamente pela repetição da dor, mas também pela possibilidade de cuidado, reconhecimento e transformação.





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